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Revista O Pão Nosso de Cada Dia

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A Semente na Terra - Lc 2,16-21

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A Semente na Terra - Lc 2,16-21 A carta a Tito – que lemos numa das missas do Natal – diz que “se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pela humanidade” (Tt 3,4). É um convite a contemplarmos, na cena do Natal, o amor de Deus pela humanidade, desse Deus que, em seu Filho, se fez carne. A cena do Natal é a cena de um Deus que se fez pequeno e indefeso, para ser tocado por nossas mãos e acolhido em nossos braços. Quem não quer ver, tocar, tomar nos braços um recém-nascido? - O Natal, porém, ao lado da ternura da Mãe e da candura do Filho, tem um caráter “passional”. Fala da paixão de Deus pelos homens e mulheres, a sua simpatia extrema por nós, impulso de amor que o levou a compartilhar a nossa própria condição. O “amor louco” de Deus por nós o levará à cruz, de alguma forma, sentida e pressentida no presépio, onde o Menino nasceu porque não havia lugar para ele nas hospedarias. A Mãe deu à luz num lugar em que os animais costumavam passar a noite, envolveu-o em faixas (como depois da descida da cruz) e o colocou numa manjedoura (figura do sepulcro talhado na rocha). - O drama da fé cristã é acolher a carne de Deus, que se fez solidário com a nossa fragilidade: “Todo espírito que reconhece que Jesus Cristo veio na carne vem de Deus” (1Jo 4,2). A cena do Natal nos revela aquele Deus que ninguém jamais viu (Jo 1,18). Se é difícil reconhecer a identidade profunda de Jesus em sua vida adulta, não menos difícil é reconhecer a sua origem divina numa origem tão pobre, tão humilde, tão humana. - A cena do Natal mostra-se como um contraponto entre a potência humana, que se autoexalta, se expande e se consuma num levantamento demográfico mundial, o primeiro da história (Lc 2,1), e a impotência de Deus, que se humilha, se auto-limita e se concentra numa criança. O Reino de Deus e o Império dos grandes nada têm em comum! - Se o Filho de Deus tivesse vindo com poder, no fulgor da sua glória – como, muitas vezes, sonhamos – com certeza não teria sido exposto à rejeição, à exclusão, à acolhida entre os animais. Todos (ou muitíssimos) – quem sabe por quanto tempo! – o teríamos acolhido. Não teria sido, porém, Deus, mas um ídolo, uma Sua representação à nossa medida. - A própria Escritura chega a representar Deus como sendo de “enorme grandeza”, “esplendor extraordinário” e “terrível aspecto” (cf. Dn 2,31). Na verdade, porém, essas são as características do ídolo, comuns a todas as religiões. Uma representação que, afinal, cabe na nossa cabeça! Mas Deus se revela a nós mais como a pedrinha que derruba o ídolo (cf. Dn 2,34) – feito à imagem e na medida da nossa imaginação – do que como o ídolo que nos daria uma 'ideia' de Deus. O sinal para se reconhecer Deus, na verdade, é outro: a sua grandeza enorme é a grandeza do pequeno, o seu fascinante esplendor é o esplendor do menino envolto em faixas, o seu aspecto tremendo é o aspecto de um corpinho tremendo (do verbo 'tremer') na manjedoura (Lc 2,12). - S. Francisco de Assis o entendeu muito bem quando resolveu montar, em fraqueza e pobreza, o primeiro presépio, em Greccio, para que entrasse pelos olhos e, assim, pelo coração, o que insistia em não entrar pelas palavras e pela inteligência, que, na época, elaborava conceitos altíssimos e corretíssimos de Deus, mas, ao mesmo tempo, infinitamente distantes do Deus que se revelou no pequeno e pobre Jesus de Nazaré. - Santo Inácio de Loyola coloca diante de nós dois símbolos realíssimos: o estandarte (ou a bandeira) da “pobreza, humilhação e humildade” – como no Magnificat – e o da “riqueza, vanglória e soberba”. O primeiro é o do nosso rei, que nasceu pobre entre os animais, viveu pobre entre os pobres e morreu tão pobre que até a roupa lhe tiraram; o segundo é o de satanás. Cabe a nós faze a escolha entre os dois. - Essa primeira apresentação que Lucas faz de Jesus, que marcou o “poverello” de Assis e o “soldado” basco, só tem de romântico a ternura do drama em que o amor de Deus se viu envolvido pelo desprezo humano. Essa apresentação, na verdade, é normativa para a nossa fé. É a porta de entrada para a 'casa' onde Ele mora e onde podemos encontrá-lo: na pequenez, na humildade, na pobreza; nos pequenos, nos humildes, nos pobres. - Um Deus grande se impõe e impõe; um Deus pequeno se expõe à rejeição. É a fragilidade do amor. É a vulnerabilidade do amor. O amor não pode não respeitar a liberdade e o faz, fazendose pequeno, simples, humilde, pobre. Mas aos que o acolhem assim como ele é dá “o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). - Maria, a mãe do Filho de Deus feito homem, é a imagem feminina e materna de seu próprio filho: pequena, pobre, humilde. Nada tem das celebridades que dão à luz, na solidão das clínicas vip, a filhos filmados com exclusividade... para garantir maior publicidade. O foco não está nela, mas no filho, que, por sua vez, está todo voltado para o Pai e para nós. O Pai é sua fonte; nós, seus irmãos e irmãs perdidos, que ele veio buscar e salvar. A humildade do Pai se reflete no Filho; a humildade do Filho, na Mãe, pequena, frágil, pobre, serva do Senhor e dos seus irmãos e irmãs, amados por Deus, amados por ela.