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A SEMENTE NA TERRA – Mt 2,1-12 do dia 07/01/2018

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A SEMENTE NA TERRA – Mt 2,1-12 do dia 07/01/2018

 

- José, judeu, esposo de Maria, com o auxílio da palavra do anjo, sabe onde se encontra o Messias: falta-lhe apenas reconhecer e acolher o dom. Já os pagãos, representados pelos Magos, devem fazer uma longa caminhada, guiados pela estrela, para chegar a Jerusalém e informar-se sobre onde nasceu o Senhor.

- José representa o caminho de fé do israelita; os Magos, o caminho de fé do pagão... o nosso caminho. Encontrar a Deus, que nos salva das nossas falências e nos abre as portas da humana realização, é o desejo que nunca apeia do coração humano.

- A história dos Magos sempre impressionou a cultura dos grandes e a piedade dos pequenos. O texto os chama de “magos”, mas tornaram-se ‘reis’ por influência de Is 60,3 e do Sl 72,10ss. O texto não os quantifica, mas, na tradição, são contados ‘três’, em correspondência aos três dons que ofereceram. Ampliados simbolicamente, representam Sem, Cam e Jafet, os filhos de Noé, toda a humanidade, raiz ancestral da Igreja.

- Ainda que muitos exegetas considerem a vinda dos Magos a Belém uma representação simbólica dos pagãos, que a pregação do Evangelho pelos missionários cristãos trouxe à tradição judaica e ao seu mais belo fruto, Jesus, não há consenso sobre sua historicidade. Há quem defenda sua historicidade com bons argumentos; há outros que exploram o sentido simbólico do relato, mas não afirmam sua historicidade. Parece mais sensato Raymond E. Brown ao dizer que não se pode nem negar nem afirmar a historicidade do que traz Mateus em Mt 2,1-12!

- A tradição (com letra minúscula, claro) quer que o que teria restado dos restos mortais dos Magos repousam na Catedral de Colônia, na Alemanha. Digo ‘finalmente’ porque, depois de tantas idas e vindas, depois de girar terra e mar, chegaram a Milão (igreja de Santo Eustórgio) e, daí, foram subtraídos – isso é um eufemismo – por Frederico Barbarroxa, em 1164, quando este destruiu a cidade.

- Os temas desta poética narração – uma exclusividade do Evangelho de Mateus, que escreveu para cristãos provenientes do judaísmo, mas tem também uma perspectiva universalista – são dois: a sabedoria, que prepara o caminho para o encontro com a revelação; a revelação, que manifesta a todos o Messias, luz dos povos.

- O Salvador está presente, antes de tudo, na “estrela”, que simboliza a sabedoria, princípio de toda busca. A verdadeira sabedoria leva a Jerusalém: a sabedoria abre a mente e o coração para a revelação, e o Salvador está presente na “Escritura”, que indica em que direção deve ser procurado. Seguindo as suas indicações, a estrela reaparece numa nova luz: a razão é iluminada pela revelação e conhece Aquele que procura. A “alegria” do coração dá a certeza de se ter encontrado ‘no lugar certo’ o que se procurava. É ali, naquela frágil criancinha, enrolada em trapos, que ele é adorado: abrem-se para ela os “tesouros” dos povos. O Senhor está presente na “adoração” (adorar quer dizer ‘levar à boca’), no ‘beijo de comunhão’ com ele, e no ‘tesouro ‘ de quem dá como ele se deu. Assim, Deus já é e, finalmente, será, em plenitude, “tudo em todos” (1Cor 15,28).

- Um místico medieval, Mestre Eckhart, dizia que a história dos Magos é “o Natal da alma”, quer dizer, o nascimento do crente em Deus e de Deus no crente. Trata-se de uma gestação lenta, gradual, mas plena. Um percurso de cinco passos: a consideração (‘con-siderar’ quer dizer “estar-com-as-estrelas”) da inteligência, que provoca o desejo de seguir a própria estrela; a Escritura, que vai desenhando aquele que esperamos; a alegria do coração que mostra onde Ele realmente está; a adoração, gesto que só se dirige à divindade; o dom de si Àquele que já se deu a nós.

- A festa de hoje é um convite a fazermos de novo a caminhada dos Magos, como se não soubéssemos ainda “onde” está o Salvador. É preciso fazer em primeira pessoa a trajetória dos Magos, enfrentando as noites da vida e da alma, os desejos e as dúvidas, as esperanças e as incertezas, guiados por uma ‘estrela’, que, no seu ziguezague, aparece e desaparece. Para não virarmos aqueles escribas e sacerdotes que sabiam tudo sobre o Senhor e davam a pista para matá-lo ou Herodes, que não sabia nada, mas tinha poder para matá-lo e, assim, preservar seu poder. É preciso tomar o caminho dos Magos e deixar-se possuir pelo coração dos Magos: o caminho do amor humilde e puro, que, através da busca da inteligência e da revelação, da alegria e da adoração, chega ao dom de si. Só assim nascemos Nele e Ele em nós.